segunda-feira, 4 de julho de 2016

"Para ser feliz curta o lance de viver"


 PARA SER FELIZ, CURTA O  LANCE DE VIVER


Certa vez, um paciente me falou que queria parar de tomar todos os seus remédios, pois estava cansado de engolir diariamente os comprimidos da pressão alta, do diabetes, do colesterol e do hipotireoidismo. Após explicar-lhe a importância de seguir o seu tratamento, perguntei por que ele estava pensando nisso. “É difícil ser feliz com tantos problemas”, ele me respondeu.
Na minha profissão, tratei cólica renal e infarto do coração. Atendi gente que levou picada de cobra e tiro de arma de fogo. Dei remédio pra enxaqueca e dor de barriga. E, de todos os males que presenciei, o maior deles — a mais insuportável dor — foi a tristeza.
Sei que é difícil encontrar a sonhada felicidade em dias tão confusos. Nessas manhãs em que chegam notícias de mortes, pobreza e corrupção. Nas noites que dormem em desalento, silêncio e escuridão. Então me lembro de Rubem Alves: “Ostra feliz não faz pérola. Ostra pra fazer pérola tem que ter um grão de areia dentro dela. O grão de areia faz a ostra sofrer e a ostra faz a pérola pra deixar de sofrer”.
Perder a vontade de sorrir para a vida é anoitecer sem luar. É um jardim de flores secas e expectativas mortas. É estar em frente ao abismo e se render a ele — você deixa de resistir e pula no buraco da alma. Quem perde a esperança é porque tem um furúnculo de mazelas inflamado no peito.
Quando estamos o tempo todo insatisfeitos com a vida, não prestamos atenção ao que realmente importa. Fechamos os olhos ao carinho de quem está perto e nos afastamos da saudade de quem está longe. Deixamos de sentir o perfume das flores novas que insistem em nascer na janela de nossos olhos — apesar da dor. E esquecemos que ainda podemos produzir nossas próprias pérolas.
O que é felicidade para você? Para Rubem Alves, “felicidade é recuperar a coisa amada que tinha sido perdida”. Para Nietzsche, “quem tem uma razão de viver é capaz de suportar qualquer coisa”.
Quando fico triste, mantenho em mim a emoção de continuar me encantando ao ouvir “Over The Rainbow” na voz de Judy Garland: em algum lugar além do arco-íris, onde os céus são azuis, os problemas se derretem como gotas de limão e os sonhos que ouso sonhar realmente se tornam realidade.
Talvez, a felicidade seja um pouco disso tudo mesmo. É lavar o sofrimento todos os dias. Com a ferida aberta em seu coração, você se permitirá sentir alegria — mesmo na dor. Afinal, para ser feliz basta curtir esse lance imprevisível de viver.
   POR REBECA BEDONE

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